Para a nossa paisagem cultural em 2018

E cá ficam os nossos ambiciosos 5 desejos/caminhos para a paisagem cultural em 2018:

1 - Milho tradicional e suas consociações;
2 - Agropecuária de pastagem equilibrada com a agropecuária de forragem (rebanho de ovelhas bordaleiras de edm em pastoreio rotacional)
3 - Gestão de exóticas invasoras;
4 - Pastoreio multiespecífico da serra (ovelhas churras do minho, cabras bravias e porcos bísaros);
5 - Centros de extensão rural e Incubadoras de projetos rurais;

Ficam as sementes/ideias que certamente não são as únicas soluções para o território e que não se concretizarão num ano. Mas se é verdade que o caminhante faz o caminho, também é o caminho que o faz andar. Que cada caminho tenha o seu caminhante e que cada caminhante tenha o seu caminho!

Feliz 2018!

 

1 - Reduzir ao máximo possível o cultivo de milho híbrido que domina os socalcos de Sistelo há algumas décadas (seja por cultivo direto seja por macheamento indireto do tradicional), favorecendo a opção pela consociação ancestral das variedades tradicionais de milho com feijão e com cucurbitáceas.

As consociações, abandonadas por falta de jovens que se dediquem à terra e à agropecuária, quando bem planeadas aumentam a sustentabilidade ambiental e económica. O milho serve de suporte e sombreador das leguminosas que por sua vez fixam azoto atmosférico no solo. Ao mesmo tempo diminuem o número de sachas e beneficiam da inevitável rega do milheiral. As cucurbitáceas embora não sejam fixadoras de azoto trazem todos os outros benefícios. A variedade tradicional do minho normalmente apresenta fecundação efetiva (formação de grão) até cerca de 2/3 a 3/4 da espiga. Às vezes é acusada de pouco produtiva pelo pequeno tamanho de espiga, de grão e reduzida fecundação, mas raramente se tem em conta a estabilidade produtiva em anos com variabilidade climática fora da média. 

 

2 - Um rebanho comunitário de ovelhas bordaleiras de entre-douro-e-minho em pastoreio rotacional, produtor de anhos, leite (queijo) e lã

Os socalcos de Sistelo estão a desaparecer de forma galopante quase a par do desaparecimento das ovelhas bordaleiras (já não resta sequer nenhuma ovelha desta raça autóctone).

Desde que cá chegamos os pequenos rebanhos foram desaparecendo e hoje restam menos de meia centena de ovelhas cruzadas entre a churra e a bordaleira que não têm aptidão nem para socalcos nem para serra. Este avanço de matos está inevitavelmente ligado ao desinteresse pela atividade agrossilvopastoril e já põe em perigo a descontinuidade de combustíveis que outrora salvaguardava as aldeias dos incêndios florestais.

Contrariar o abandono dos socalcos e a sua invasão por matos passa por aumentar a ocupação cultural dos socalcos com pastagens permanentes melhoradas reduzindo a ocupação das forragens exóticas. A produção de forragens acentuou a sua predominância num contexto diferente do de hoje e os socalcos vão sucumbindo à rotação simplificada de milho híbrido-azevém-pousio(para fenos espontâneos de corte) daí resultante.

As pastagens permanentes ancestrais e/ou melhoradas são sequestradoras de carbono, permitem a utilização em pastoreio direto, eliminam a "escravatura" associada à produção de alimento de corte para fornecer no estábulo e dispensam a necessidade de espaços de armazenamento. A ocupação cultural com forragens dificulta grandemente a utilização de socalcos de baixa acessibilidade e sem disponibilidade de água porque é exigente em cuidados culturais, mobilizações do solo e rega. A tudo isto acresce o facto de em Portugal, e de forma acentuada nas terras altas do minho, a colheita de fenos ter uma janela de colheita muito curta e imprevisível, ou seja, as chuvas de primavera tardia atrasam a colheita e o verão seco acelera a perda da parte nutritiva, as sementes. Por isso, quase sempre são colhidos fenos de baixa qualidade e que não beneficiam da cura correta. A forragem de inverno é muitas vezes utilizada em pastoreio direto sucumbindo ao pisoteio e incubando "bombas" de parasitoses nos animais, que frequentemente sofrem de diarreias e mortes súbitas.

Neste sentido a ocupação ideal poderia passar pela produção de grão (milho ou outros) nos socalcos privilegiados, fenos nos intermédios e pastagens permanentes nos inacessíveis e pobres. Nestes últimos a implementação de um sistema de pastoreio rotativo em 3 dias consecutivos e períodos de retorno de 21 dias aumentaria a produtividade, diminuiria a dependência de fatores de produção externos e melhoraria a qualidade de vida dos criadores, ou seja seria um importante contributo para a sustentabilidade e manutenção da paisagem de socalcos.
 

 

3 - Reduzir ao máximo as exóticas florestais invasoras como a Haquea, a Acácia, o Eucalipto e a Camaciparis.

A presença da Haquea é muito pontual e tem sido bem controlada. Nenhum animal de pastoreio lhe toca e devem continuar a ser geridas da forma correta que as entidades locais têm feito.

As acácias também estão pouco presentes e apenas parecem ser problema no vale do Vez ao longo da Ecovia. O futuro do acacial dos Aflitos terá que ser pensado e é importante pensar num plano para a sua substituição por árvores autóctones quer pertencentes ao Habitat de Carvalhal Galaico Português quer pertencentes à Floresta Ripícola de Amial. Será este um bom local para planear um pequeno jardim botânico de autóctones identificadas?

O eucalipto deve ser travado quanto antes e urge impedir novas plantações e substituir as existentes enquanto o seu número ainda o permite com alguma facilidade.

As matas de camaciparis, apesar do baixo poder invasivo, devem começar a ser geridas e gradualmente é importante eliminar algumas árvores que sufocam os pinheiros de casquinha (Pinus silvestrys), bidoeiros (Betula celtiberica), castanheiros (Castanea sativa) e carvalhos (Quercus robur e Quercus Pyrenaica) que no seu interior lutam pelo acesso à luz crescendo em altura sem a devida proporção de diâmetro do tronco. Uma medida de curto prazo poderia passar precisamente por eliminar as camaciparis mais próximas das autóctones sufocadas.

De facto as camaciparis não têm a mesma capacidade invasora das outras 3 exóticas, no entanto relativamente às autóctones têm baixíssima palatibilidade para os herbívoros (domésticos e selvagens) e por isso têm maior competitividade na ocupação do terreno que os carvalhos, bidoeiros, castanheiros e pinhos de casquinha. Ninguém lhes toca (vacas, garranas e ovelhas) com a excepção das cabras (e só na fase de produção de gálbulas verdes e de crescimento vegetativo de jovens folhas). Isto faz com que apesar do baixo poder invasivo cresçam mais rápido que as autóctones com quem competem. Por cá estas matas foram instaladas em áreas onde estavam precisamente as sociedades vegetais arbóreas autóctones. Quando as observamos vêmos no seu interior autóctones altíssimas mas com diâmetros de tronco reduzidíssimos (dão pena as pobres coitadas), a ponto de ser até perigoso o corte das camaciparis porque se for indiscriminado os poucos bidos e carvalhos do seu interior vão quebrar por falta de resguardo do vento (por isso o abate talvez tenha que ser de dentro para fora). Todas as nossas (Sistelo) matas de camaciparis estão em expansão, normalmente da cota alta para a baixa e nas florestas de altitude de zonas planas (pequenos planaltos) acontece o mesmo. Pode observar-se isto na acessível mata das Aguieiras-Fonte do sudro e também na mata de ricôvo, para falar das acessíveis ao pedestrianista comum. Às vezes são gabadas pela sombra mas as florestas autóctones também a dão e dão-na de forma mais equilibrada ou seja só quando é necessária. No inverno as florestas autóctones deixam passar a luz necessária para valiosas produções secundárias como os cogumelos e as aromáticas. Neste sentido não defendemos o abate a curto prazo mas sim uma gestão que permita a sua substituição gradual por carvalhais galaico portugueses e por florestas ripícolas de altitude (os bidoais ribeirinhos com bordos - Acer pseudoplatanus). Poderiamos remeter o carvalhal para as encostas pedregosas e declivosas mas é nos lugares onde estão as camaciparis que estavam os seus melhores refúgios porque os serviços florestais de meados do séc XX puseram-nas precisamente nos sítios onde há disponibilidade de água e solos espessos (pelo menos por cá é nesses sítios que estão). Além do mais culturalmente não têm a personalidade cultural das florestas de Quercus (róbur ou pyrenaica) nem das florestas de Pinus silvestrys que já lá estavam antes delas e que hoje parecem caricaturas do passado, a esguiar rumo ao céu numa luta desigual. Neste texto acabamos por falar mais delas que das outras porque a solução para as outras é mais óbvia: eliminação tão rápida quanto possível.  

 

4 - Pastoreio multiespecífico da serra

A história recente destas paragens levou a desequilíbrios entre os vários animais de pastoreio e prospeção que vivem na serra. Nas terras do Alto Vez, os porcos bísaros desapareceram e as ovelhas churras do minho e cabras bravias para lá caminham. Ficaram as vacas cachenas e as éguas garranas. Cada um destes animais explora nichos de pasto diferentes e este desequilíbrio contribuiu para o domínio da serra pelos matagais.

A nossa aposta nas cabras não foi à toa e quem conhece o nosso projeto também já sabe que entre todos estes animais são elas as menos pastoreadoras e mais prospectivas e também são elas que incluem maior percentagem de matos na sua dieta. As cabras fazem falta e são elas as que têm maior potencial para devolver o mosaico agrossilvopastoril à serra, mas as nossas não chegam, são precisas mais.

À medida que os matos regredirem surgirão novas oportunidades para os animais pastoreadores e mais dependentes de alimentos de alto valor nutricional. As clareiras de pasto poderão voltar a sustentar grandes rebanhos de rés em que a ovelha churra do minho aumentará gradualmente de número na mesma proporção do aumento desse pasto herbáceo. Também os porcos poderão beneficiar desta mudança e poderão acrescentar à sua dieta de bolota inúmeros bolbos de herbáceas de clareira que garantirão estabilidade nutricional ao longo do ano.

As próprias cabras, as vacas e as garranas beneficiarão desta mudança e com o aumento da componente herbácea da sua dieta haverá maiores produções de leite e quem sabe a possibilidade de produção de queijos.

Também os ungulados selvagens sairão beneficiados com os pastos de clareira, que além do valor nutricional servirão de descontinuidade combustível importante para a prevenção de incêndios e estabilidade da progressão da sucessão ecológica.
 

 

5 - Centros de extensão rural e Incubadoras de projetos rurais nas casas da floresta abandonadas

A concretização dos desejos anteriores precisa de impulso e de apoio. O despovoamento tem que ser contrariado. As casas da floresta, hoje abandonadas e em decadência acelerada, seriam a sede ideal para dinamizar as economias locais e para apoiar o empreendedorismo rural. Poderiam servir de base para a investigação e divulgação de boas práticas e de centros de troca de conhecimentos. Poderiam também albergar bancos de sementes de variedades locais.

Muitas destas casas possuem entornos privilegiados para a implantação de campos de demonstração e experimentação das mais modernas soluções para os problemas que enfrentam os pastores, agricultores e silvicultores. Nestes entornos poderiam instalar-se campos experimentais de pastagens e forragens vocacionadas para animais de pasto domésticos, para animais selvagens e para abelhas. Poderiam ser testadas rotações e consociações (vegetais e animais), correções de solo, vedações, maquinaria leve e muitas outras técnicas e tecnologias. Poderiam ser desenvolvidas ferramentas de melhoramento do maneio da agrossilvopastoricia e das atividades com potencial social e ambiental na gestão das florestas, incêndios, biodiversidade e paisagem.

A par deste papel do entorno, os edifícios poderiam albergar espaços-projeto equipados para o desenvolvimento de ateliês e formação profissional potenciadores de inúmeras transformações e valorizações com vista na dinamização da cadeia comercial dos velhos e dos novos produtos. Estes espaços poderiam ser ocupados temporariamente por novos empreendedores que se comprometeriam em troca a divulgar o conhecimento produzido. Poder-se-ia estruturar estes espaços em torno de várias tipologias, por exemplo:

a) Espaço-projeto do pão - equipado para a produção de broa tradicional;
b) Espaço-projeto dos cogumelos - equipado para a identificação, secagem e embalamento de cogumelos silvestres e também para a produção de cogumelos autóctones em palhas e troncos;
c) Espaço-projeto das aromáticas - equipado para a identificação, secagem e embalamento de aromáticas como o louro, a nêveda, a camomila e muitas outras;
d) Espaço-projeto dos frutos silvestres - equipado para a secagem e embalamento de frutos e para a sua transformação em marmeladas, doces e compotas;
e) Espaço-projeto do textil - equipado para o tratamento da lã e do linho;
f) Espaço-projeto do leite - equipado para o aproveitamento do leite para queijo (com uma componente para transformação em cosméticos;
g) Espaço-projeto do composto agrícola - equipado para a compostagem de qualidade que garanta salubridade e ausência de daninhas no composto produzido;
h) Espaço-projeto do mel - equipado para a apicultura;
i) Espaço-projeto da cestaria - equipado para o tratamento e transformação do vime, do junco e de outros materiais.